
Morre o poderoso da Folha de SP
O empresário e publisher da Folha de São Paulo, Octavio Frias de Oliveira morreu na tarde deste domingo, 29 de abril de 2007, aos 94 anos em São Paulo. Frias, foi o protagonista da modernização da mídia brasileira desde a segunda metade do século 20. Pertencia a uma geração de grandes empreendedores sendo ele um dos últimos remanescentes e o único a se manter em atividade profissional até o ano de 2006. Por decorrência de uma queda doméstica, em novembro, ele foi submetido a cirurgia para remoção de hematoma craniano. Teve alta hospitalar na passagem do ano e desde então vinha se recuperando na casa de sua filha Maria Cristina. As condições clínicas de Frias pioraram nas últimas semanas, levando à instalação de um quadro de insuficiência renal grave. Depois de atuar no serviço público e nos ramos financeiro e imobiliário, em 1962 Frias adquiriu a Folha de S. Paulo em sociedade com Carlos Caldeira Filho. Em algumas décadas saneou a empresa e a reorganizou em termos industriais, levando a Folha a se tornar o maior e um dos mais influentes jornais do país. Dono de personalidade inquieta, dinâmico, ele continuava a receber visitantes, supervisionar as empresas e emendar pessoalmente os editoriais da Folha até ser hospitalizado em 2006. Na Imprensa Sua atuação na imprensa foi marcada pela independência em relação a governos e grupos econômicos, assim como pela pluralidade das visões que abrigou em seus veículos de informação. Inteligência objetiva, gosto pela inovação e informalidade no trato são aspectos pessoais destacados pelos que conviveram com ele. Octavio Frias de Oliveira deixa a viúva, d. Dagmar Frias de Oliveira, e os filhos Maria Helena, Otavio, Maria Cristina e Luís.
Como nascera?
Frias nasceu em 5 de agosto de 1912, na casa de uma avó, no Rio de Janeiro. Era o oitavo filho de Luiz Torres de Oliveira, juiz de direito em Queluz (SP), e Elvira Frias de Oliveira. Aos sete anos, a mãe morreu, após uma série de cirurgias que buscavam identificar as causas de dores que sentia. Nesse momento, Luiz já trocara o posto de juiz pelo de administrador do bairro Maria Zélia, em São Paulo, construído pelo empresário Jorge Street, cujo nome homenageava a mulher, Maria Zélia Frias Street, tia de Elvira. O bairro ficava no entorno da Companhia Nacional de Tecidos de Juta, de propriedade de Street e Guilherme Guinle. Os negócios do tio não iam bem, e o pai de Octavio acabou perdendo o emprego depois de a fábrica ser vendida para o conde Francisco Matarazzo. Inicialmente, Luiz Torres tentou tocar uma fazenda que comprara em Itupeva, sem muito sucesso. Em 1931, ele retornaria à vida de magistrado, como juiz em Sorocaba. Em 1926, Octavio começou a trabalhar como office-boy na Companhia de Gás. Ficou na empresa até o início dos anos 1930. Extremamente hábil no uso de máquinas de calcular, foi trabalhar na Recebedoria de Rendas, órgão da Secretaria da Fazenda. Ele fez carreira no setor público até 1946, quando, em sociedade com Octavio Orozimbo Roxo Loureiro, fundou o BNI (inicialmente, Banco Nacional Imobiliário e, depois, Banco Nacional Interamericano), projeto que se concretizou em 1948. Afastado na prática do BNI, que vivia uma crise -havia ido "por água abaixo", segundo o próprio Octavio, como destaca seu biógrafo, o jornalista Engel Paschoal, autor de "A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira" -, Frias teve de responder pelos problemas que o banco enfrentou e teve seus bens bloqueados. "Não tive responsabilidade sobre o que aconteceu, mas fui atingido diretamente", afirmou, certa vez. O banco sofreu intervenção e acabou comprado pelo Bradesco.
Destaque na política

Na década de 1970, Otávio Frias comandou o processo que levou a Folha a assumir um papel de destaque na abertura política. Com a direção de Redação nas mãos do jornalista Claudio Abramo, a partir de 1975 o jornal começa a se destacar pela pluralidade de vozes e por um posicionamento político que incomodou os militares. Criou em 1976 uma seção de artigos na página 3 que abriu espaço para opiniões divergentes, abrigando também textos de intelectuais e políticos que faziam oposição ao regime. No mês de agosto de 1977, um relatório do Serviço Nacional de Informações dizia que a Folha tinha "o esquema de infiltração mais bem montado da chamada grande imprensa", para "isolar o governo da opinião pública". Em 1º de setembro, o jornalista Lourenço Diaféria publicou o texto "Herói. Morto. Nós", em que, a partir da história de um bombeiro que salvara uma criança em um poço de ariranhas no zoológico de Brasília, fazia uma comparação com Duque de Caixas. E escreveu: "O povo está cansado de estátuas e cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal". O Exército não gostou nada do texto. Diaféria foi preso em 15 de setembro. No dia seguinte, a Folha publicou o espaço da coluna do jornalista em branco. Frias, então, recebeu um telefonema de Hugo Abreu, chefe da Casa Militar, dizendo que, se a coluna voltasse a ser publicada em branco, a Folha seria fechada. Em 1986, a Folha alcançou a liderança em circulação no mercado de jornais, posição que mantém até hoje. Aos poucos, a direção da empresa foi sendo assumida pelos filhos. Otavio, desde 1984, é o diretor de Redação da Folha, em que comandou, enfrentando no início fortes resistências de setores da redação, a implementação do chamado projeto Folha, que em suma defende a realização de um jornalismo crítico, apartidário e pluralista. Em 1990, Luís, que já ocupara vários postos da administração da empresa, tornou-se o principal executivo do grupo. Em 1996, comandou a criação do UOL. [Foto enterro por Paulo Liebert - AE [Francisco Martins]
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